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QUINZE PRIMAVERAS

Virava, uma, duas, três vezes. Admirava meu corpo esguio e belo naquele vestido de gala. Me sentia uma verdadeira princesa, naquele momento...

domingo, 9 de agosto de 2015

A PRINCESA DAS FADAS

   Vagueava pelos bosques ainda escuros, onde os primeiros raios da manhã ainda não tinham chegado. Naquele dia em especial, havia no ar uma aura de mistério, que fazia com que eu simplesmente caminhasse e contemplasse a obra maior de Deus. Mesmo que a dor ainda fosse intensa, e que meu coração ainda estivesse em frangalhos, ali pensei ter sido invadida por um misto de alegria e felicidade, que desabrocharam em um sorriso há muito tempo esquecido, e que fizeram-me esquecer, ao menos por um tempo, que eu era uma pessoa infeliz.
   Caminhando, deixando meus passos gravados na terra molhada que eu pisava, não percebi que desviei-me  de meu caminho, indo parar numa espécie de clareira, desconhecida até mesmo para mim, que já moro há muito tempo nesta região.
   Apesar de não saber como voltar para o bosque, e de estar, confesso, perdida, resolvi aproveitar a oportunidade para dar um passeio pela clareira e conhecê-la, pois mesmo perdida, a noite estava distante.
   Aquela clareira era um verdadeiro paraíso, mostrando que contos de fadas podem ter sim uma pitada de realidade.
   Madressilvas, bromélias, tulipas, margaridas, rosas e mais um emaranhado sem fim de espécies de flores de todas as cores e tamanhos. Um verdadeiro paraíso! E, o mais incrível, aquele jardim era bem cuidado. Quem poderia ser o responsável por esta obra de arte? Seria homem ou mulher? Apostava que fosse uma mulher, mas não sabia da existência de moradias por estes lados. Se tivesse alguma casa, seria no bosque ao lado do jardim, que distanciava uns dez metros de mim. Apesar de eu nunca ter sido bisbilhoteira, queria falar com o dono ou dona do jardim, e pedir algumas dicas para o meu próprio, que estava meio abandonado.
    Pensando nisso, e sorrindo pelo efeito que o pequeno paraíso causara em mim, caminhei vagarosamente os poucos metros que me separavam do bosque, absorvendo cada detalhe das flores, que tinham, com toda certeza, um brilho diferente de todas as que eu já tinha visto, como se fossem mágicas.
   Nesse momento, apesar de ansiar por chegar logo ao bosque, eu reparei em uma flor, pequenina, que parecia irradiar fogo, tamanho o seu brilho. De cor laranja, e com pétalas miúdas de delicadeza visível, eu não saberia identificar de que espécie ela era.
   Admirei-a por um tempo que me pareceu infinito. Busquei nas profundezas da memória alguma flor como aquela, mas minha tentativa foi em vão.
   Voltei à realidade ao perceber um certo movimento nas folhas de uma árvore frondosa, que distanciava a uns dois metros de mim. Sorri. O bosque e o dono do jardim que me aguardassem. Eu não sairia dali sem saber a quem pertencia aquela preciosidade.
   Me dirigi à árvore em que as folhas pareciam dançar. Afastei os galhos, e, para meu espanto o que encontrei não foi uma forma de vida humana. Serpenteavam na minha frente, pequenas fadinhas de feições delicadas como as flores do jardim às minhas costas. Minha cara devia ser de espanto, ou de surpresa, pois elas pararam com seu voo gracioso para me encarar como que procurando algo em meu rosto que revelasse meus pensamentos e sentimentos.

   Abri os olhos e vi, não sem um misto de surpresa, duas criaturinhas voando na frente de meus olhos. Belisquei meu próprio braço para confirmar se o que estou vivendo é sonho ou realidade.
   Pelo visto era realidade, pois eu não acordei com um salto ou caí da cama depois do beliscão. Ele só me fez sentir mais dor.
   As fadinhas continuavam ali, me encarando. Eu parecia ser atração para elas.
   Sentei-me. Não parecia estar em um bosque, pois não via nenhuma árvore perto de mim. Parecia mais um casa. Perguntei às criaturinhas onde eu estava, e elas me disseram que eu tinha chegado ao reino delas.
   - Então não estou no bosque?
   - Não, você está aqui, no Reino das Fadas.
   - Mas, e porque eu?
   - Você encontrou nosso portal, onde nos comunicamos com o mundo dos humanos.
   - Mas eu só vi o jardim...
   - Exatamente, mas é justamente no jardim que está nosso portal.
   Devo ter feito cara de quem não entendeu nada, pois ela acrescentou:
   - Nosso portal se manifesta através de uma flor laranja, pequena, delicada, suave, miúda. Uma florzinha laranja de brilho incontestável que parece irradiar fogo.
   - Ah.
   - Agora, se a senhorita me der licença, preciso ir a meus afazeres.
   - Claro, sem problemas.
   A fadinha de asas e feições delicadas saiu, e eu fiquei a imaginar como seria a minha vida se eu tivesse asas.
   Sorri ao perceber que não estava sozinha. Tinha por companhia uma fadinha mais miúda que a anterior, e que parecia tímida ao me observar.
   - Oi – arrisquei.
   Atrapalhada, ela tentou se esconder atrás de uma caixa ao perceber que foi descoberta. Ri da inocência da pequenina, que por sua vez, espiava por detrás da caixa.
   - Não precisa ter medo, pequena. Como é teu nome?
   - Ga... Ga... Gaia...
   - Gaia. Mas que belo nome.
   Ela, por fim, pareceu um pouco mais calma. Aos poucos, ela foi saindo de seu esconderijo.
   - Gaia?
   - O que, senhora?
   - Pode me chamar de senhorita. Não gosto de me sentir velha.
   - Ah. Senhorita, o que desejas?
   - Quero saber mais sobre vocês.
   - Vocês quem?
   - Ora, as fadas.
   - Nós?
   - Exato, Gaia. Por favor, fale-me sobre vocês.
   - Hum, ok. Nós somos seres mágicos. Nossa existência remete a 500 anos, isto é, há 500 anos surgiu a primeira fada na face da Terra: a Fahir. Minha avó conta que quando ela nasceu, filha de uma princesa que se apaixonou por um unicórnio, ela era a primeira da nossa espécie. Porém, a mãe de Fahir odiou-a no instante em que ela nasceu porque não parecia nem com ela nem com o pau dela. Fahir, então, foi abandonada, deixada aos próprios cuidados. Ela vagou durante dias, com frio, fome e medo, levada pelo vento ou pela chuva. Comia pétalas de margaridas para sobreviver. Um dia, encontrou uma árvore oca, e entrou nela para se abrigar da tempestade que viria e que parecia que seria forte. Ela adormeceu lá mesmo, esperando que o mau tempo passasse. Fahir acordou no meio da noite com uma luz ofuscante que vinha da parede da árvore. Aproximou-se, e ao tocar na luz, esta a puxou para dentro. Era um portal, e ela caiu aqui, no nosso reino. Contam as histórias que quando Fahir chegou, o reino era muito mais bonito do que é hoje. Bom, ela chegou aqui e se encantou com o lugar.
   “Descobriu que o portal para o mundo dos homens mudava constantemente, e tratou de alterar isso com sua magia. Criou o jardim que a senhorita viu, e transformou o portal na flor laranja. O segredo do portal é que todo humano infeliz e com um coração bom, que prestasse atenção nela, mesmo com sua pequenez, esboçasse felicidade ao admirá-la, iria automaticamente acionar um alerta para a rainha, que viria receber a pessoa.
   “Bem, preciso lhe dizer, antes de mais nada, que Fahir, bom, ela não era como nós, ela não tinha nosso tamanho. Ela tinha a estatura de um humano normal. Mas isso ainda não vem ao caso. O fato é que ela estudou muito bem as plantas, mas, entre elas, principalmente as flores do nosso mundo, e descobriu um meio de se auto reproduzir em um ser menor. Ali, ela criou fadas menores, criou a minha espécie. Primeiro, ela criou um casal, que foi dando origem a toda a linhagem de fadas que existem.
   “Um dia, o alerta tocou no mundo das fadas. Foi um alvoroço só. Fahir disse que iria averiguar quem seria o humano que, mesmo sem querer, havia descoberto nosso portal. Por um mês, Fahir sumiu. O mundo das fadas virou de ponta-cabeça.
   “Foi uma festança quando ela retornou. As fadas a receberam com uma festa de dar inveja a qualquer humano. Porém, Fahir estava diferente. Em seu pulso, havia uma marca desconhecida para as fadas do reino: uma coroa cinzenta, na parte inferior de seu pulso da mão direita. Em seu discurso, Fahir disse que aquela marca era a marca do amor que ela havia recebido. Que ela se apaixonara pelo humano que acionou o alerta no reino. E que ela estava esperando um filho dele, que seria o Príncipe das Fadas, o herdeiro do trono que ela ocupava.
   “O encerramento do discurso marcou o início dos festejos no reino. As fadas ficaram em polvorosa. Nos meses que se seguiram, todos preparavam-se para a chegada do príncipe.
   “Porém, uma certa aflição tomou conta do reino quando souberam da doença da rainha. Dedicaram-se os criados a cuidar dela com ainda mais zelo e dedicação.
   “Numa manhã chuvosa de primavera, nascia Salin, o Príncipe das Fadas, e morria Fahir, a Rainha das Fadas já a trezentos anos. Naquele dia nasceu minha avó.
   “Você, senhorita, deve estar pensando que o Salin já é velho, mas a verdade é que os membros da família real, isto é, os descendentes de Fahir, só envelhecem até os vinte anos. Mesmo com seus duzentos anos, Salin ainda parece ter vinte.”
   - Então, ele ainda vive?
   - Sim.
   - E você, se não for incômodo, que idade tem? E sua avó, ainda vive?
   - Tenho cinquenta. Sim, ela vive, mas nós, fadas menores, começamos a envelhecer aos setenta e cinco anos; até ali, temos cara de vinte também.
   - E com que idade geralmente morrem?
   - Geralmente duzentos e cinquenta anos.
   - Hum.
   - Senhorita?
   - Sim?
   - Provavelmente Salin irá vir visitar-te, pois és a primeira a acionar o portal depois do dia em que a rainha saiu e apaixonou-se por aquele humano.
   - Ah.
   Escutamos passos. Eles eram leves, delicados, pareciam pena batendo no chão. A maçaneta da porta girou, e entrou um homem, elegante, bonito, forte, que aparentava ter vinte anos. Porém, tinha duas asas coloridas e enormes, mas, sobretudo, delicadas. O príncipe Salin.
   - Boa tarde, senhorita.
   - Boa tarde, alteza.
   - Sem formalidades. Me chame apenas de Salin.
   - Atena.
   - Atena, que lindo nome.
   Corei.
   - Será que você gostaria de vir comigo a um passeio?
   - Seria encantador.
   Ele estendeu-me a mão, e assim que pus a minha entre aqueles dedos seguros, ele surpreendeu-me com um beijo delicado e demorado em minha palma direita.
   O passeio foi maravilhoso. O reino era maravilhoso. Havia milhares de fadinhas como a que me contara a linda história da rainha. Havia uma imensidão ainda maior daquele jardim encantado que eu descobrira pela manhã. Estava maravilhada com a companhia de Salin, mas eu precisava ir. Expliquei-lhe minha intenção, e ele concordou. Levou-me de volta a Gaia, para que ela me indicasse o caminho de volta.
   - Ele não é lindo? – comentou Gaia.
   - Sim, e muito simpático e atencioso.
   - Acho que gostou de você.
   - Pare de dizer bobagens, Gaia.
   - Ok, mas bem que vi ele dando-lhe olhares furtivos.
   - Gaia!
   - Ok, parei. Sabe, senhorita Atena, dizem que quando Salin apaixonar-se, sua escolhida, depois de quatro horas, se verá com asas iguais às dele, e com uma coroa cinzenta marcada no pulso, assim como houve com Fahir.
   - Tá, tá, tudo isso é muito lindo, mas quero voltar para casa.
   - Ok, deite-se, senhorita. Vou lhe aplicar essa injeção e você acordará na campina ao lado do bosque e do jardim.
   Acenei e ela injetou o líquido púrpura fosforescente em meu braço.

   Abri os olhos. A lua já ia alta no céu, iluminando o jardim ao meu lado.
   Sorrio ao lembrar do sonho, das fadinhas, de Gaia, e, principalmente, de Salin.
   Levanto. O caminho é longo até em casa.
   Passo por um lago e resolvo beber água, pois minha garganta está muito seca. Ao lavar a cara, e ver meu reflexo na água, algo me surpreende: vejo duas enormes asas coloridas me emoldurando. Apalpo-as, achando que são fruto da minha imaginação, mas constato que sim, são reais! Imediatamente, viro minha mão direita, e lá está ela: a coroa cinzenta, em meu pulso, o símbolo da nova princesa das fadas.


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